Odisseia perdida
Quando e por que Hollywood, e a grande mídia, começaram a destruir o nosso passado?
O épico, o belo, o glorioso e o heróico sempre fizeram parte — de certa forma — do nosso cotidiano. Inspirados por mitos, histórias reais ou meras estórias, em nossa infância, o nosso consciente (e o inconsciente) são moldados por tudo isso que foi mencionado. Quando criança, li toda a saga de Percy Jackson (e recomendaria que todos os pais colocassem seus filhos para fazer o mesmo) e desenvolvi um imaginário fascinante graças à mitologia, à busca pela glória, à superação do bem e do mal e outras narrativas inseridas na trama. Não obstante, desenhos como He-Man, Spiderman, os antigos desenhos da Disney e outros moldavam o imaginário para o correto e o belo, cercando as crianças de boas referências não apenas para a diversão, mas para a vida adulta.
Ao longo dos anos 2000, mais precisamente a partir de 2015, houve um movimento de reavivamento de diversas franquias do cinema, das animações e da literatura com o intuito de dar continuidade ou reimaginar novas obras. Lembro-me claramente do trailer de Star Wars: Force Awakens, onde uma nova personagem, uma nova protagonista aliás, era inserida na história para reviver a franquia. O resultado? A pior protagonista da história e os 3 piores filmes da franquia. Criaram uma personagem que já “nasceu especial”, sem precisar de treinamento, sem derramar sangue e suor e, de certa forma, desmerecendo os personagens antigos.
Podemos citar esse fato em diversos filmes, animes e desenhos e teríamos uma interminável lista. Porém, algo me chamou a atenção sobre esse assunto recentemente. Com o anúncio do filme Odisseia, os cinemas vão ganhar uma “continuação” do filme Tróia (aquele mesmo com o Brad Pitt) e, já prevendo que o filme seria uma desconstrução do mito de Homero, as expectativas para o trailer eram baixas, mas quando foi lançado ele conseguiu ser pior do que qualquer pessimista pensaria. Uma Grécia helênica representada como um cenário da Idade Média, sempre cinza, e personagens completamente descaracterizados. Para piorar? Helena, a mulher mais bonita de toda a Grécia, foi representada por uma mulher extremamente feia.
Mas por que isso importa tanto? Será que estou criando uma tempestade num copo d’água?
Se falassem para você que tudo que você sabe e acreditou é, na verdade, algo falso ou distorcido, como sua mente ficaria? Algo perturbador poderia acontecer, não é? Você passaria por estágios de negação, raiva e, posteriormente, a dessensibilização sobre esses assuntos e, mais à frente, sobre qualquer assunto. O que me chama a atenção é a tentativa massiva de destruição (ou reconstrução) não só de desenhos, animes e filmes, mas também dos mitos da nossa civilização, de nossa religião e, principalmente, da lógica que nos cerca.
A ideia? Fazer tudo aquilo que tem sentido não ser verdade, reinterpretar e reimaginar de uma forma tosca e contrária ao que de fato aquilo deveria ser. O feio é belo, a paz é guerra, a liberdade é prisão. Com tudo se invertendo, nada importa e tudo é permitido. Mas é algo sutil, que começa na sua infância e depois, na vida adulta, você já não liga mais para nada por ter passado pela negação, raiva e dessensibilização.

